segunda-feira, 4 de março de 2013

sentada com pétalas no regaço








Vem ter comigo ao fim do dia, todos os dias
Esperar-te-ei sentada
E no regaço terei pétalas de lírios
Para te lembrar que plantei amor no jardim.

Vem ter comigo ao fim do dia
Estarei à tua espera, de olhos postos num caminho a dois
E, de pálpebras cerradas, aguardarei o beijo
Que há-de serenar a angústia do olhar
Quando te penso longe e tenho frio.

Vem ter comigo ao fim do dia, todos os dias
E alisa as pregas do meu desassossego
Com a ternura dos gestos e a paz das mãos que se dão às minhas
Cruzando desejos maduros
Que fazem, ainda e sempre, estremecer as borboletas dentro do meu peito.

Vem ter comigo
E não te esqueças de trazer um vaso de água
Que deitarás sobre a terra do jardim, ao fim do dia, todos os dias.


Inverno




Foi no tempo invernoso das celebrações
Brilhavam luzes nas montras quando em mim se acendeu a chama das certezas.
E foi na sombra de um desassossego enraivecido
Que estilhacei contra o chão os vidros
Afogando-me depois no sangue de uma ferida aberta.
Mutilada.

Abriguei-me da vida na sombra ácida do estar simplesmente aqui
E sucumbi.
Nem as aves me encontraram para me debicarem as vísceras.

E no entanto havia as tuas mãos marcadas
Num resto de vida que me confundia os dias e as noites.
Como se um vento tivesse varrido a lucidez
E sobrasse apenas o pranto.
E o espanto.

Um muro alto vedou-me a luz
E o labirinto confundiu-me, numa solidão desconcertada.
Mutilada.
Sobrevivi, sonâmbula, nas fissuras de uma promessa de eternidade
E tombei exausta na parte de trás dos poemas repetidos
Coberta de geada e sem sentidos.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As palavras e as mãos








Lembro-me sempre dos dias em que vinhas carregado de palavras
E eu te ouvia pela madrugada
Era como se fosses barco e trouxesses contigo o vento
Ou os salpicos de espuma sobre a promessa do tempo eterno
Pousava o braço no calor da tua pele e acreditava
Que a viagem seria longa.

Lembro-me também das borboletas no jardim
Ou do aroma da relva acabada de cortar.

Se abrir as gavetas encontro ainda as imagens
Guardei-as ordenadamente
Para não ter de encadear o tempo dentro dos olhos;
Mas isso é nos dias em que me sento ao lado da memória 
E dou comigo a questionar todas as razões.
Agora, sem mapa que me leve ao rumo inicial
É nas minhas mãos que leio a geografia alternativa.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

fragmentação






Fui tecida num tear de madeira crua e depois enformada num invólucro de numeração errada, um número abaixo das minhas dimensões. Cheguei ao mundo apertada.
Cresci com vontade de saber o que estava para além do fim da rua mas tive sempre medo de atravessar a floresta e descobri-la desencantada. Nasci incrédula.
Compus-me de timidez, fio a fio, linha tecida e retorcida numa mente insatisfeita mas contida; devo ter crescido encarcerada.
Aos poucos fui vestindo tecido acetinado, enfadada de tanto me encerrar na pequenez herdada. Pequenos complementos em fios de seda, escondidos, sentidos, vistos; e depois o gosto de me sentir recompensada.
Sorri quem sabe ser desejada. Investe quem tem um espelho grande e tece nele linhas cruzadas, desenleadas pela sublime sensação de ser amada.

Não sei se é problema deste espelho, ou se sou eu que me vejo numa imagem desfocada, mas os fios com que me visto agora são estas linhas quebradas, fios enleados, emaranhados, mal acabados …
Onde está a parte que me falta, as partes que me compõem: o corpo, as pernas, a cintura antes tão bem desenhada, as minhas mãos engenhosas e a saia fantasiada?
Não, não me digas que é uma tristeza inventada. É que a casa está vazia, tudo agora é um espelho descomposto, ou são os olhos que o quebraram e eu estou nele assim fragmentada.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

esperando






Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz.
Só lhes ouvi o bater das asas;
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer.
Para lá da porta via-se o verão incendiando a planície
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia.
Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora o desejo se converta em pressa
E queira desvendar os labirintos.







sábado, 16 de fevereiro de 2013

o fim da escrita








Demoro-me nas linhas das palavras e as letras secam.

Demoram-se-me os gestos, mais do que seria de esperar, na dimensão dos verdes e nos espectros que os enleiam.

Ignoro os nomes das coisas e o texto enrola-se.

Enrolam-se as emoções; e a espuma dos sonhos, macilenta, térrea, despida de substância, petrifica.
 
Os ângulos dos dedos ferem a coragem; não há paz nem no recolhimento. 

Roça a dor na demora dos gestos; fio de meada enleada, larva em casulo seco, veludo desbotado. Pedra.

Inquieta-se a lucidez, fermenta o rasgão no espelho, perde-se a semântica dos sentidos.

Escrever para quem se só a leitura dos amores bem sucedidos é fértil.








sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dias sem flores




Não me dêem flores enlaçadas ou por enlaçar.
As flores envelhecem em jarras depois do momento em que deveriam aquecer as mãos.

Antes não as ter …

Prefiro a realidade das palavras, a ternura colada à voz, a sílaba na frase espontânea, o gemido abraçado ao frio da madrugada, a banalidade suavizada nos ouvidos, o murmúrio soprado sobre a luz de uma vela, ou o dizer acenado no instante da partida.
Não há flores que preencham os espaços gelados do silêncio.